Domingo, 12 de Dezembro de 2010

"O último minuto na vida de S."

“Não existem lugares marcados, podem sentar-se onde quiserem!”


Dito isto e depois de lhe entregarmos os nossos convites, entrámos na sala 2 do São Jorge.


Enquanto íamos escolhendo os lugares reparámos que a actriz já estava muito direita em palco esperando o momento certo para “entrar em cena”.


Dizem que a curiosidade aguça o engenho e é bem verdade, sempre me perguntei afinal o que teria acontecido nessa noite, na altura com 5 aninhos, lembro-me da agitação e ao mesmo tempo consternação estampada nos rostos das pessoas que se “amontoavam” a escutar a rádio ou a ver a televisão, todos desejando que não passa-se de um erro, um engano….. Mas não tinha sido engano, o avião tinha mesmo explodido no ar e todos tinham morrido nesse acidente, deixando-nos a todos com a mesma curiosidade “Afinal o que aconteceu?”


… e ali estávamos nós sentadas naquela pequena e expectante plateia ansiando para que a luz se apagasse e “Snu” começasse o seu relato incessante de uma vida recheada de algumas alegrias, tristezas, amarguras e muita censura.


Depois de ter conhecido e casado com um português em Inglaterra, Snu veio viver para o Portugal arcaico, como ela lhe chamava, no início dos anos 60. Mesmo com todo o dinheiro, bens e influências que a família do marido possuía, ele não se livrou de embarcar para a Guerra Colonial como os demais, para aí servir.


Snu grávida do 1.º filho, viu-se só em Lisboa numa casa enorme que dividia com uma empregada. Ocupava os dias a ler, aliviando um pouco o enorme tédio que se apoderava dela. Foi dos livros que surgiu a ideia de criar uma editora que pudesse editar e publicar livros, livres de censura. Foi difícil no início mas Snu conseguiu levar a editora avante e publicar sem censura livros sobre os direitos das mulheres, política e até mesmo igualdades entre cor e raça.


Depois do nascimento do 2.º filho já com o marido em Lisboa deu-se o 25 de Abril, uma alegria apoderou-se dela e não resistiu em sair para a rua comemorar. Afinal aquele povo arcaico tinha conseguido libertar-se da ditadura em que vivia.


Algum tempo depois surgia a divórcio, situação social com que não se importou afinal ela já não se sentia casada há algum tempo e com a editora em bom caminho só teria que “iniciar uma nova vida” como ela sempre desejou.


Foi numa dessas tardes, depois de ter decidido convidar alguns políticos a publicarem na sua editora as suas obras, que Snu conheceu aquele “pequeno homenzinho” de olhos verdes, lindos que a encantou com as suas palavras tão verdadeiras e tão sem medo de viver.


A partir desse dia tudo mudou na sua vida e não teve qualquer receio de se apaixonar ou até mesmo medo de se amarem, afinal sentiam-se bem um com o outro e o que interessava os códigos políticos e sociais?


Morreram ambos abraçados na explosão da avioneta numa viagem apressada para o Porto. Aliás tudo era apressado nas suas vidas, até a pressa de viver……


 

Um texto belíssimo de Miguel Real, brilhantemente interpretado por Sylvie Rocha!


Uma excelente prenda de natal em cena até ao próximo dia 19. Recomendo vivamente!!!!!


Eu simplesmente adorei!


publicado por CC às 18:21
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